Estávamos então no momento de tomar decisões e eu tinha confiado ao coração a função executiva.
E o meu coração é muito prático nas suas escolhas. Nem pestanejou uma aurícula. Antes enviou ao cérebro ainda meio adormecido as instruções necessárias para que ele providenciasse um guião bonito mas verosímil para justificar o súbito desaparecimento da passarinha.
De cadáver em punho, deixei a mente esvoaçar pelo terraço enquanto congeminava a trama. Um pequeno ajuste aqui, outro pequeno ajuste ali e a estória foi aparecendo construída com a mestria de um adolescente acabado de chegar para jantar no meio das torradas matinais dos cotas.
A passarinha mostrara sinais de arrebitamento no dia anterior, depois de nutrida, e nascia a esperança de que estaria em forma para se reunir à família na manhã que se revelaria funesta.
Daí, era plausível que tivesse dado à sola.
E foi esse o caminho que o argumento seguiu.
Atão foi assim: eu, o pai tubarão chanfrado que a filhota reconhece como seu, ouvi a passarinha piar e, como é óbvio, tratei de imediato de acudir à sua aflição (porque lá fora piavam mais pássaros e podiam ser os papás da dita cuja).
E como o fiz?
Pegando na passarinha com a gentileza costumeira, levando-a a apanhar o ar fresco da manhã (sempre no pressuposto de que ela não sabia voar ainda, tão pequenita).
Vai daí, a bicha dá um impulso alado até à estrutura metálica dos baloiços catapultando-se acto contínuo para cima da vedação onde a aguardavam os outros passarinhos e ala que se faz tarde rumo a casa (que no caso concreto era o céu, mas essa parte teve que ser suprimida no filme), apesar dos esforços inglórios de um homem em cuecas a correr pelo terraço à vista da vizinhança (algo que não seria difícil de acreditar para uma filha minha).
Menti com os dentes todos, bem sei, e assim fraquejei no compromisso firmado quanto à verdade suprema. E esse é o dilema que partilho convosco afinal.
Este complicado papel da progenitura coloca-nos a toda a hora perante escolhas “impossíveis” e obriga-nos com frequência a contornar, vergar ou mesmo eliminar da equação alguns princípios e valores “sagrados” em prol dos que mais alto se erguem em certas condições.
E era aqui que queria chegar.
Aqui e ao facto cada vez mais evidente de que embora sempre bem vindas, algumas passarinhas podem efectivamente baralhar as contas de uma pessoa e trazerem no bico a água que nos dá pela barba (isto na óptica de quem já perdeu as cócegas).
E assim já posso dar o assunto por encerrado, uma vez expurgadas as minhas inquietações.
É por isto que vale a pena um gajo ter um blogue.
Melhor, só mesmo dois...