13.5.26

Na próxima estação

 Ontem estava no amanhã que agora sonho para mim. Nem reparei.

Vivi esse tempo sem ter a noção do que tinha. Mas perdi.
Evito lembrar. A melancolia é vizinha da depressão. E correm depressa as notícias nesse prédio devoluto, sito nos bastidores da consciência de cada um de nós.
As recordações de perdas sofridas evocam a saudade. São más companhias.
Mais vale só. Ainda que valha pouco uma pessoa doente, infectada pelo vírus da solidão. Pode contagiar qualquer um. E não existe uma vacina, lacuna na medicina, para o desgosto de amor.
Ou outro que seja. Não existe lugar no mundo para os deserdados do coração.
Talvez já tenha existido, mas eu não percebi. Andava distraído, perdido nas vielas do supérfluo quando possuía morada na artéria principal. O meu mal era a falta de orientação.
Encontrei o caminho, entretanto. Tinha partido o comboio quando cheguei à estação. Sentei-me sozinho num banco, à espera da seguinte locomotiva, a que estava para chegar.
Ainda não chegou.
E eu continuo sentado, talvez venha no dia a seguir.
Poderei então reviver, apenas um dia depois, o sonho do que terei no futuro.
Quando der pela falta outra vez.

12.5.26

Coitus Ininterruptus

 Jogar às escondidas é uma actividade a que sempre dediquei alguma atenção e entusiasmo. No meu Bairro do Charquinho chegava a envolver cerca de cinquenta putos como eu, ao serão, numa algazarra infernal.

Levávamos aquilo a sério, pois envolvia garotas e todas as ocasiões para exibirmos os nossos talentos naturais eram esmifradas até ao sabugo.
Regra geral, o último a chegar ficava no coito. O coito era o local onde o que procurava fechava os olhos para contar até cem para dar tempo aos que se pretendiam esconder.
Mas o coito, sempre tão apreciado, era também uma espécie de fortaleza que o procurador tinha que proteger contando apenas com a sua atenção. A ideia era gritar o nome do(a) avistado(a) antes que este(a) atingisse o coito e dissesse um, dois, três. Se nos distraíamos à procura dos outros, seguindo pistas falsas ou ilusões ópticas, era um fartar vilanagem na retaguarda.

Os primeiros a serem descobertos eram os preguiçosos e os chicos-espertos. Escondiam-se o mais próximo possível do coito. Uns porque lhes faltava a pachorra para buscarem um esconderijo melhor mas mais distante. Outros porque tinham a mania que imitavam na perfeição um candeeiro de rua. Gente doida, claro está.
Os últimos a aparecerem, os que nunca praticavam o coito, eram os mais espertos e os que melhor dominavam a arte de se camuflarem. Julgavam-se vencedores, por serem sempre os mais astutos, mas davam secas de horas ao resto do pessoal e perdiam sempre o melhor da animação.

E depois havia os mais burrinhos, os atrevidos arrogantes e os cobardes, que quando tinham a desdita de vestirem a pele do que procura ficavam a dois metros do coito para terem a certeza de que não se deixavam enganar. Não procuravam ninguém, apenas aguardavam algum distraído que se deixasse apanhar. Ficavam histéricos com a emoção, sempre que isso acontecia. Acreditavam-se no centro das atenções.
Não raras vezes, já todos os outros dormiam a sono solto nas suas casas ainda o panhonha do coito andava a falar sozinho pelas ruas, gritando os nomes dos ausentes, procurando fantasmas, assombrado pela paciência que os outros jogadores exibiam, supostamente escondidos nas trevas até às tantas da matina.
Traídos pelo incumprimento das regras do jogo (que ninguém precisava de escrever, pois todos as conheciam), pela sua forma batoteira de jogar, pagavam o preço em notas de ridículo e alguns trocos da mais profunda desilusão. Quando se percebiam nessa triste figura, sozinhos no coito e cheios de vontade de brincar, coravam de vergonha e tinham vontade de desaparecer.
Mas no serão seguinte estavam lá outra vez e a estratégia era a mesma...

Dispenso


 

Mantenha-se vigilante!

 Preparava-me para tomar um duche e o Futebol Clube do Porto preparava-se para se sagrar campeão mundial pela segunda vez. Nóque, nóque!

Confesso que não é costume baterem-me à porta nos domingos de manhã. Quem o faz arrisca-se a enfrentar a fúria do tubarão. Vesti qualquer coisa à pressa e abri a porta com ar de quem acabou de sair da cama e não está com disposição para socializar. Deparei-me com uma gaiata, adolescente, vestida à anos 50, mais o pai, um invisual cinquentão.
O protesto morreu na minha garganta e acabei por balbuciar um fáchavôr de dizer.
E eles disseram. Com a eficácia de dois chineses praticantes de pingue-pongue em alta competição. O pai afirmava, a filha folheava a Bíblia durante cinco segundos e recitava o trecho da confirmação.
Eu insistia na minha firmeza agnóstica e a dupla contrapunha sem hesitar. O pai afirmava e a filha zás! E eu olhava alternadamente para um ou para outro, apoiado na porta entreaberta. O Porto falhava uma grande penalidade, era o que me parecia, do pouco que captava do ruído de fundo da televisão, ao longe na sala.
O pai, compenetrado, utilizava a minha argumentação como um judoca. Cada vez que me era concedida a palavra, o efeito bumerangue estava lá para me arrepender. Aliás, o meu arrependimento parecia o objectivo último daquela dupla disciplinada. Um apocalipse ao virar da esquina e a salvação oferecida à minha porta, em versão familiar, mais uma revista gratuita para consolidar a argumentação.
Medonha, a revista Mantenha-se Vigiante!. Na ortografia (desastrosa) e sobretudo na intimidação dos pecadores da grande Babilónia. Como eu, agnóstico confesso, punido à porta de casa com o sermão enfatizado em altos berros pela eucaristia televisiva da vizinha muito católica de cima, um ritual de fé a que já me habituei como ao apito do despertador.
As únicas testemunhas do meu martírio, que deixa de haver vizinhos em casa quando algum otário se deixa caçar, eram o pai e a filha, transbordantes de satisfação por outro passo significativo rumo ao Paraíso de Jeová. E eu cada vez menos convicto do meu lugar cativo no Céu, com a cidade do Porto a festejar a tremenda vitória a que não pude assistir e o meu Benfica goleado pelo Belenenses, sem apelo, para complementar. Mais a ameaça do extermínio (quase) total do Mundo às mãos dos anjos vingadores e de um Jesus Cristo regressado com muito mau humor, tudo bem claro no panfleto em brasileirês. Mais a música sacra da vizinha, banda sonora do meu purgatório dominical.
Nosso Senhor que me castigou algum defeito me encontrou...

11.5.26

Palavra que sim

 Palavra. Assim, quieta, num canto da folha. Sem sentido, à espera da companhia de outras como ela. As únicas capazes de lhe fornecer uma explicação de si mesma, perplexa com a ambiguidade de uma palavra só, quando apenas uma palavra deveria bastar.

O sentido que lhe faltava não era uma lacuna no sentido convencional. O sentido, afinal, padecia do mesmo problema. Na condição de palavra e enquanto conjunto de letras que queriam dizer alguma coisa a quem as soubesse ler. Eram vários os sentidos que lhe atribuíam mas ele sentia-se único, atónito com a variedade nas interpretações possíveis para uma palavra só. Como se cada palavra fosse concebida para atrair mais companheiras, e criassem novas expressões, frases completas, parágrafos elucidativos, capítulos de um livro que alguém se orgulharia de publicar. Milhares de palavras reunidas para construírem uma coisa qualquer, importante. Decisiva até.

Palavra. À espera de companhia para poder comunicar melhor. Palavra só. Mas afinal já eram duas. Olha uma palavra só. De repente, a frase brota da boca, descodificada pela mente da pessoa que a compreendeu à sua maneira. Mais vale só? - interroga-se a palavra, intimidada com a falta de privacidade que a presença de outras palavras lhe pode acarretar. Palavras feias, talvez. Más companhias. Abeirou-se de imediato a pessimista e sentou-se à direita da palavra só. A palavra disse não sou. Mas parecia e por isso lhe enviaram o castigo pejorativo de uma péssima conotação. A palavra rotulada de pessimista não estava sozinha outra vez. Mas queria, ou assim julgava, até decidir meditar por algum tempo, a sós.
E por isso a deixaram quieta, noutra zona da folha, à espera do que viria, riscos calculados de uma solidão voluntária que a iria (alegadamente) proteger. Receava ser mal interpretada, tinha medo da incompreensão. Palavra que sim, afirmou. Que sim lá ficaram e palavra aprendeu a gostar do novo sentido que o trio lhe conferia. Sentia-se uma palavra melhor. Entretanto aprendeu algo mais, formulou uma hipótese e testou as conclusões.

Palavras. Reunidas em harmonia, perfeitas na combinação. Inequívocas.
Porém, palavras é só uma. Artificialmente multiplicada por se travestir num plural. Sem precisar de outras palavras para seguir no sentido que pretendia, individual no ajuntamento, virtual na sua realidade que ambicionava comunicar. Não precisou de uma multidão de palavras para melhor se exprimir, bastou-lhe sintetizar o espírito da união que a sua pluralidade traduzia. E para os bons entendedores, calculava, apenas uma letra bastaria.

27.7.22

A romper


 

3.6.22

Visita de médico

 Isto está a precisar de uma limpeza.

8.10.13

Com os meus botões

Dificilmente ganharei qualquer guerra na qual a paciência seja a arma principal. Mas prometo esforçar-me.

7.10.13

What does the fox say

Yilvis.

(Aproveitem enquanto não enjoa)

6.10.13

Na minha fantasia

Toquei cada centímetro quadrado da tua pele. E arrepiei-te, tanto com os lábios como com o olhar.

28.9.13

Ouvidos experimentados

Pelo barulho, diria que a máquina de lavar trabalha a míele à hora e a impressora está endiabrother.

Período de reflexão!

Mais uma excelente oportunidade para seleccionar os males menores de entre as candidaturas que a nossa democracia tem para nos propor.

27.9.13

Em loja de porcelana

Já fiz parte de mais de 10 blogues colectivos. Só existem dois em pleno funcionamento.
Nunca deviam ter-me deixado sair ou, ainda mais prudente, convidado a entrar.