25.6.08

PAGO A PRONTO (Dez 2005)

Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.

Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.

Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...

Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.

Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação.

Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.

Não sei entregar-me às prestações.

22.6.08

SUMMERTIME


18.6.08

FEIOS, PORCOS E MAUS (Nov 2005)

Este não é, nem pode ser, um tema agradável. Convivi com o fenómeno até aos treze anos de idade, altura em que consegui impor pela força o fim de algo a que quis poupar uma irmã mais nova por quem me preocupava nessa altura.A violência doméstica é um pesadelo sem sentido, é uma exibição grotesca de selvajaria com palco no que deveria ser um santuário para qualquer pessoa: a sua própria casa.

Na esmagadora maioria dos casos são mulheres as vítimas. Isto explica-se pelas abjectas questões ditas culturais (a educação que "os" perdoa), pela escassez de opções de quem sofre às mãos de um algoz "da casa" e, santa paciência, pela lei da selva onde o mais forte impõe esta regra medonha à bruta. Uma cobardia, sob qualquer prisma. E uma indignidade também, mesmo que de violência psicológica se trate.A dor de quem se vê refém de um filme assim não se mede pelo teor das sevícias praticadas. Violência é violência e o resto são tretas.

Já falei neste espaço acerca do martírio que hoje está na ordem do dia. Aumentam os casos reportados às autoridades e mesmo que isso reflicta apenas o facto de mais gente avançar com a imprescindível denúncia, é uma estatística que nos envergonha em pleno século XXI.Não há atenuantes para a violência doméstica. A própria expressão engloba o quão nojenta se revela esta manifestação de instintos pré-históricos por parte de alguns neandertais cujo lugar adequado é uma cela. Ou, perdoem-me a franqueza, uma cama de hospital (tá bem, pode ser no Miguel Bombarda...).
Insisto nesta tecla porque nunca é demais apontar o dedo às vergonhas e chamá-las pelos nomes, para que nenhum bandalho se consiga sentir mais macho por dominar a murro a sua companheira (e/ou o resto da família). É assim a realidade nua e crua e não existem paninhos quentes que a pintem de um tom menos hostil.Este ano já morreram mais de trinta mulheres às mãos dos seus carrascos cruéis. Mais de trinta. As que morreram, pois as queixas são às centenas e os silêncios representam milhares.
É um problema, é uma vergonha.

E tem que acabar, de uma vez por todas.

15.6.08

A LUA E O FALSO COMETA

12.6.08

RASTOS DE MIM (Out 2005)

Posso morrer amanhã. Não faço ideia. E por isso preciso deixar ditas as coisas que nunca poderiam ficar por dizer.Porque o tempo avisa-nos da sua correria, mas nós fazemo-nos esquecidos e deixamos sempre para o dia seguinte as tarefas que achamos possíveis de realizar na boa. Amanhã ou depois.Mas não é assim que a coisa funciona.

Recuso a noção da vida como um dado adquirido, como uma companheira leal e dedicada que temos por certa ao nosso lado e nada fazemos por conservar. Está ali e pronto.Não. Eu prefiro acreditar no tal piano de cauda que pode mesmo aterrar-me na mona e mandar-me desta pra melhor. Ou pior, feito num harmónio que mal consiga tocar as notas baixas da sobrevivência precária. Prefiro encarar de frente a minha condição de mortal construído com materiais muito flexíveis mas de resistência duvidosa, menos rijos do que a maior parte do que me rodeia.Parece pessimista? Não é.

Até poderei estar a blogar na plena posse das minhas faculdades daqui a vinte anos. O que direi nessa altura poderá ser dito tarde demais para produzir o efeito que hoje alcançaria. Rejeito a possibilidade de me arrepender então. Antes opto por arriscar falar demais, por deixar no que escrevo, no que digo e no que faço a marca da minha passagem por este mundo e a da passagem dos outros nos cruzamentos da minha. Poucos(as) seguem ainda no mesmo trajecto que eu, lado a lado, por uma data de razões que este blogue algures explicou ou explicará. E é a essa minúscula multidão que devo o penhor da minha gratidão, as palavras que agradecem o bem que o seu amor me faz e o quanto se revelam determinantes aos meus olhos.

A minha felicidade é avessa à solidão e esta é o meu maior terror. Só me protege o amor e é esse que me esforço por louvar, aqui e noutros suportes (como a vida que se faz lá fora). Sou grato a quem me ama e a quem me oferece o pretexto, a própria pessoa, especial, para também eu conhecer de perto o arrebatamento da paixão. A minha alegria é feita das emoções que me fazem sentir vivo como deve ser.Feliz porque tenho com quem me partilhar, com quem chorar, com quem rir às gargalhadas em noites bem passadas e com quem fazer o melhor amor que o mundo conheceu. Esse sou eu. Um gajo capaz de morrer amanhã, cujas pegadas não sejam sopradas pelo vento, confiadas ao esquecimento por não haver quem sinta saudades quando me ausentar de vez. Por não haver quem me queira recordar. Essa é a morte verdadeira para mim.

A vida é o espaço que me foi destinado para dar conta de mim nas pessoas que o destino encaminhou para um rumo paralelo ao meu. As pessoas que me interessam, interessadas pelo que tenha de bom para lhes dar. As pessoas que me querem amar, generosas, para elas as prosas que consigo debitar. Mais a certeza do meu melhor, reservado a quem o saiba merecer, dentro dos critérios que estabeleci e aceito sem reservas negociar. Cedências. E outras exigências consentidas pelo amor.Uma equilibrada permuta em que ninguém saia a perder.Eu sonho conseguir o equilíbrio em mim na gestão razoável de um coração inesgotável enquanto receptáculo do amor, o de pai também. Também sonho ultrapassar um dia a mais exigente fasquia e perceber, no fim, que amei alguém até esse suspiro final da minha paixão. Tenho a razão e pretendo prová-la em vida, para deixar a quem me suceda um mapa bem traçado do que vale a pena cultivar. O tesouro da amizade e do amor, dos prazeres que a vida nos dá, de bandeja, coisas divinais. E ao alcance do mais comum dos mortais.

Luto pela conquista do amor e ainda com mais ardor quando está em causa a sua preservação. Um amor verdadeiro não se pode substituir, apenas se disfarçam as mazelas resultantes da sua inexplicável extinção. Tapam-se os buracos na alma com remendos de euforia para colmatar as lacunas de emoção. Eu recuso aceitar males menores. Quero amar a sério até ao fim, é esse o estandarte que carregarei enquanto respirar e que me identificará na última morada, depois.Agora está na hora de me embebedar de paixão, de mergulhar no espaço que a vida me dá e sentir nas veias o sangue a pulsar. Acelerado pela chama que me orgulha atiçar.

Agora está na hora de amar.

5.6.08

A POSTA NO ARAME (Set 2005)

Tenho palavras encarceradas em mim. E não as posso libertar assim.São reféns das minhas limitações. Condenadas ao silêncio das palavras marginais que podem incomodar.Sinto-me prisioneiro e afinal sou o carcereiro das utopias e ilusões que pretendo conquistar.
Ambiciono palavras soltas, mas faço orelhas moucas à verdade que se perdeu.
Amordaçado pelas condições, sonho novas revoluções nas arestas da que Abril me deu.
No calor da madrugada, busco a escrita transpirada e a vontade de gritar não!

Mas sinto-me gelado pelo ar condicionado da minha liberdade de expressão.

3.6.08

31.5.08

MON COEUR S'OUVRE À TA VOIX* (Agosto 2005)

Só no esplendor de uma aurora encontro paralelo com o nascimento de um grande amor. A luz todo-poderosa que rompe o negro da noite e abafa o céu estrelado numa explosão laranja que nos ofusca, minutos após o sol despontar por detrás da linha do horizonte. Cega-nos, como a paixão. Acelera-nos o coração. Grava em todos os pedaços livres de memória a imagem de um rosto, o cheiro de um corpo ou o som de uma voz. É assim que se apodera de nós, prepotente, sem aviso. Sem trincheira ou blindado que nos proteja da invasão. Tombamos sem apelo nos braços de quem assim nos encantou.

O amor aquece como o astro-rei. E alimenta. Ignoramos a sede, a fome e o frio. Como plantas verdes, como girassóis, seguimos a luz que nos anima e carrega pela vida como um tapete mágico, pura levitação.Dá-nos uma força tremenda, capazes de tudo para lutar pelo objectivo que os restantes oblitera. Nada mais merece a nossa atenção, nada ouse atravessar-se no caminho de uma violenta paixão. Como uma brigada de cavalaria avançamos para a conquista inadiável de um amor, coragem no limite do desespero. Porque só a vitória se aceita nessa guerra sem quartel.Sem tréguas, empunhamos o melhor de nós e esgrimimos os argumentos que nos justificam vencedores. Até à cedência total, à perfeição. De um sim entoado com um sorriso apaixonado, do calor transmitido pelo toque suave de uma mão, de um beijo consentido, bandeira branca à nossa investida por um grande amor.

Cada dia brilha mais quando nos ilumina a atracção por alguém. Cada momento uma alegria, sol a pino, cada contacto um arrepio. A pele que nos fascina roçada pela ponta de uma mão. E depois a reacção, em cadeia, arrebatada, dançada como um tango pelos corpos em fusão. Nuclear, energia sem controlo. Mentes ligadas no momento da explosão. Solar, quente e cheia de luz. Húmida como um campo de espigas depois uma chuvada forte, de uma trovoada ao alvorecer.

O amor é mais forte do que a vida e por ele nos dispomos a abdicar do mais precioso dom. Quem não oferece o último suspiro em troca da respiração eterna de quem nos aprisionou no coração? A cobardia não contraria o impulso natural de quem ama, quando em defesa do alvo dessa devoção. Nem mesmo o instinto de conservação, ignorado sem apelo.Não existe Deus, nem Pátria ou qualquer outra causa mais nobre que consiga imaginar para me sentenciar o fim. Nada acima do amor. Mato e morro sem hesitar, certo da justeza dos meus propósitos e da firmeza das minhas convicções.

O ocaso da vida pensa-se mais sereno na companhia de quem amamos. Sem o espectro da solidão, sem o frio seco de uma alma desprovida de paixão. Com a luz na nossa frente, sempre presente para nos guiar. Carinho, conforto, agora mais perto do momento do adeus. Um até já, pois todos acreditamos na eternidade de um amor verdadeiro. E na saudade dos que partiram antes de nós existe a esperança de uma ressureição do nosso amor, transformado em energia, a mesma que irradia um olhar transfigurado pelo poder da emoção.A noite, a mesma que borrifa magia com um luar platinado ou com o céu rasgado por uma estrela que cai, é apenas mais uma incógnita no processo de transição para outro paraíso qualquer.
Quando o sol nascer outra vez.

*Saint-Saens, Samson et Dalile, com Maria Callas na interpretação.

28.5.08

TEMPO DEMAIS

27.5.08

A POSTA NO ESQUECIMENTO (Jul 2005)

O PN levanta no seu blogue uma questão melindrosa e pertinente. Já não me lembro bem da questão que ele levanta. Ah, sim, é a cena da cannabis afectar a memória de curto prazo. Ou seja, afirmam uns gajos que a cannabis pode provocar amnésia.Concordo com essa teoria. Qual teoria? Ah, pois, os que fumam "daquilo" ficam mais esquecidos. E os que não fumam, idem.Só assim se explica que depois das eleições nem o Bloco de Esquerda, nem a JSD (?), nem (e sobretudo) a JS voltaram a referir aquela questão bué da jovem que fica tão bem nas campanhas eleitorais. A liberalização das drogas leves, ou despenalização ou o raio que os parta, foi direitinha à gaveta dos assuntos fixes para o próximo plebiscito. Esqueceram-se, claro.

E esse lapso da memória de curto prazo que afecta as organizações político-partidárias pode levar-nos a concluir que os partidos também dão nela. O que explica algumas das suas peculiares características, nomeadamente o facto de se-lhes varrerem da tola as promessas que atiram ao ar para ficarem bem compostos na fotografia para os chavalos que votam, como eu.Quem já visitou Amesterdão sabe do que estou a falar quando faço a apologia da despenalização. Não me sai da memória de curto prazo a história do puto que foi preso meses a fio por causa de uma plantação de erva que o pai dele tinha no jardim. Se fossem begónias, só mesmo a inveja da esposa do comandante do posto da GNR local poderia assumir tais proporções. Ridículas, absurdas, aberrantes como só é possível em Portugal e no Dubai.

Transformar cidadãos válidos e inofensivos em criminosos passíveis de prender preventivamente é um absurdo de dimensão colossal. Mesmo os políticos que não fumam só podem andar a reinar com o pessoal quando viram a cara para o lado perante esta evidente estupidez.Lembram-se do Carl Sagan? Admitiu, pouco antes de morrer, que boa parte do que produziu e que tanto entusiasmou milhões de caretas pelo mundo inteiro, o Carl Sagan (não sei se tão a ver) admitiu que fartou-se de escrever sob a influência daquela cena que faz perder a memória. Mas ele não se esqueceu de ser um dos gajos mais brilhantes do seu tempo na sua área. E podia não ter produzido coisa nenhuma se o caçassem no Bairro Alto a adquirir material para a carola e o enfiassem no Linhó.

Nunca vou entender porque insistem em meter drogas leves e drogas duras no mesmo saco. Um pouco como atribuir o mesmo valor de coima para o mau estacionamento e para as corridas em contramão nas auto-estradas. Eu vejo isto com clareza, apesar dos danos irreversíveis na minha memória de curto prazo: enquanto as autoridades insistirem na sua cruzada contra as traineiras que, honra lhes seja feita, nos trazem essa perigosa substância que tanto afecta o PN, o Carl Sagan, o João Pedro da Costa (que até tem uma Rua com o seu nome) e eu próprio (aproveito para me misturar pela surra neste leque de virtuosos), enquanto se mantiver esta ilegalidade indigna de um país com olhos na cara, estaremos a fomentar um disparate sem nexo e a concentrar as atenções e os meios (escassos) nos fantasmas de papel."Ena pá, ganda pinta, a polícia apreendeu mais não sei quantas toneladas de haxixe. ", aplaude o cidadão comum enquanto um mânfio lhe viola a filha ou lhe furta o automóvel acabado de comprar. E depois votam nos asnos que possuem a capacidade de pôr fim a esta aberração e eles (os asnos) esquecem apressadamente as promessas gritadas no intervalo do concerto dos Xutos onde encaixam os seus comícios de carnaval.

Já sou um bocado crescido para fumar às escondidas. E já dei provas de ser um cidadão válido, atinado qb e capaz de contribuir para o PIB, a Segurança Social, os impostos e essas merdas todas. E tirando uma ou outra maluqueira, nunca incomodei o remanso da sociedade em que me integro na perfeição (mais ou menos). Porque carga de água tenho que carregar a canga do marginal que a legislação proibicionista me confere?Não faço ideia. E se calhar isso explica-se pelos tais danos colaterais de que o Fumos fala. Contudo, em face do que acima descrevo, até me sinto grato pelas falhas de memória.Permitem-me esquecer a insensatez, a hipocrisia e a falta de vergonha dos caralhinhos que me representam nos órgãos do poder que me enoja.

23.5.08

ABERTURA FÁCIL (Maio 2005)

A porta do armário não abriu. Nem a murro. Decidiu então sair sem se barbear. Num Domingo, acabaria por ser questão de pouca monta. Mas acabou por lhe estragar o bom humor com que acordara.

Quase correu para o carro quando se apercebeu da bizarra criatura que se aproximava. Premiu ansiosamente o comando do fecho centralizado, mas nada aconteceu. A pilha acabara ali os seus dias. Teve de aturar a habitual ladainha acerca de factos sobrenaturais e charlatanices diversas que o vizinho de cima, o "bruxo", despejava sobre quem se atravessava no seu caminho. Nessa manhã, o tema incidia sobre sinais premonitórios.Nervoso, ia tentando abrir a porta da viatura com a chave, enquanto balbuciava desculpas de ocasião e "urgentíssimos afazeres". Só queria livrar-se do maluco. Acabou por partir a chave. O carro ficaria fechado, nessa linda manhã de Primavera.

Meteu-se ao caminho, cuspindo impropérios. Seria um esticão, feito a pé, mas nada o faria perder a sessão semanal do seu desporto favorito. Quando virou, na outra ponta da rua, ouvia ainda o profeta do apocalipse, castigando sem piedade o paciente contabilista do sétimo esquerdo.

A caminhada acalmou-o. Respirou fundo e apreciou a paz que envolvia o bairro. Aqui e além, crianças brincavam felizes. Reparou num menino que tentava sem sucesso despir o blusão. Abordou-o, confiante, para a boa acção do dia. Bem se esforçou, mas o fecho polilon, encravado, não abriu. Ficou, figura de parvo, com a patilha partida entre os dedos. No resto do caminho, o choro convulsivo do petiz martelou-lhe a consciência.

O calor apertava. Decidiu matar a sede na máquina da esquina, com uma lata de sumo fresquinho. Partiu uma unha, somou mais uma patilha perdida entre mãos. E projectou contra a vedação de arame uma lata por abrir.Rosnou cumprimentos quando entrou no vestiário. Bufava, possesso. Sedento, nem assim se atreveu a tentar abrir a torneira, certo de mais um fiasco nesse dia de cão. Pegou no equipamento e seguiu o instrutor, sem proferir um som. A cada passo, foi concluindo que azar tem limites e auto-injectou-se de precioso optimismo.

O sorriso deliciado pelo vento frio no rosto morreu-lhe nos lábios. Porque diabo se havia de lembrar do "bruxo" num momento daqueles, interrogou-se, enquanto enfiava o indicador na anilha de abertura do pára-quedas...

21.5.08

THE SHADOWS

19.5.08

O VENTO E O MAR (Abril 2005)

O vento, o verdadeiro e não uma qualquer brisa passageira e fugaz, segredava-lhe ao ouvido histórias de encantar. Ela ouvia e sorria, deliciada. E oferecia-lhe em troca palavras que ele espalhava pelo mundo com um sopro avassalador.Todos os dias o vento tocava-a, sem contudo a conseguir agarrar. No seu coração em remoinho, a insegurança voava descontrolada de cada vez que a sabia próxima dos que lhe podiam deitar a mão. Algo que o destino o privava de concretizar.E ele bufava a impaciência, agitava-se num temporal, sempre que a imaginava num futuro distante do seu. Longe dela, a revolta, para não a intimidar.

Um dia, quando o vento chegou junto dela para a saudar descobriu-a com um intruso. Era assim que ele o sentia, como uma ameaça, mas nada podia fazer. Ela sorria para o tranquilizar, dizia-lhe que nada mudaria na sua relação. Porém, nesse dia, ela não se interessou pelas histórias que o vento trazia para lhe segredar. Antes ouvia as palavras do intruso, que a seduzia com proezas conversadas e um interesse por ela que a lógica não conseguia explicar.Posso provar-to, dizia ele, com o vento a uivar de raiva nos cumes das montanhas ao longe. O que mais queres que faça por ti? E ela pediu-lhe que lhe explicasse o mar que não conhecia, aquele de que o vento lhe falava nas suas histórias de força indomável e de vontade de vencer.

Dias depois, o intruso regressou. Com uma fotografia das ondas, mais um leitor de cassettes sofisticado que reproduzia o som da rebentação. Ela apreciou deslumbrada, convencida de que sabia agora do que o vento falava quando a encantava num murmúrio.Foi então que o vento decidiu reagir. Com um sopro mais forte, carregou desde a praia uma casca de búzio que depositou aos seus pés. E ela apanhou-o e pôs-se a escutar o som que o vento lhe trazia, sereno e distante, diferente do mar revolto das histórias que ela lhe ouvia contar. O intruso sorria, divertido, perante a imagem patética que o vento recolhera para simbolizar o poder dos oceanos. Mas ela não lhe prestou atenção.

E o vento, que muito a queria, exibiu-lhe o mar como o sentia. E no fim ofereceu-lhe uma flor.

A POSTA FLUVIAL (Março 2005)

Gosto dos rios. Gosto da serenidade com que percorrem o leito nos pontos de sossego que o caminho lhes oferece, tranquilos, e da força descontrolada que os arrasta quando a chuva os engrossa ou o declive os reforça com uma ânsia indomável de galgar. Barragens e montanhas, pontes e fronteiras, nenhum obstáculo que os impeça de prosseguirem na jornada. Apenas adiam o momento, aumentam o tormento, das águas com pressa, atraídas pelo destino que a terra lhes impõe.

Gosto dos rios pela garra com que sulcam um percurso, definem um trajecto até ao ponto de encontro que é alvo da sua determinação. Aprecio-lhes a vontade de o atingir, a certeza feita força que ultrapassa qualquer razão, mais a coragem de se lançarem no vazio, em cascata, quando algures lhes falta um pedaço de chão. Nada os detém, apenas os atrasa. São como animais selvagens que perecem em cativeiro, parecem mansos nas albufeiras, mas espreitam atentos e avançam sem medos quando vislumbram uma boa oportunidade para fugir. E fogem, de facto, a bem ou a mal, dos muros de rochedo como das paredes de betão.

São irreverentes e descontrolados, insolentes e agitados. Mas beijam as margens com carinho, ao longo do caminho até ao abraço, doce com salgado, numa foz em ebulição.

18.5.08

ÁGUA DE TI

Percorri em silêncio o nosso caminho. Só pensei em ti. Em nós também, mas agridem-me as lembranças de um tempo que há muito deixei de viver. Em nós, pensei menos um bocadinho. Lembrei-me de como as árvores no horizonte se transformavam por magia em guerreiros gigantes, guardiões da passagem mais nobre para os montes distantes, mesmo na fronteira do paraíso, quando ainda brincávamos ali. E afinal o paraíso eras tu, bem o sei agora.
Escapa-se das minhas mãos a água do riacho, como por entre os dedos fugiu a última madeixa do teu lindo cabelo negro que tive a sorte de acariciar. O cabelo longo que molhavas com alegria, junto à água que corria. E eu, encostado a uma rocha, olhava para ti e ficava feliz.

Na boca amarga-me amor o acre da saudade, mastigada com solidão. A água fresca do riacho não me adoça o coração azedo e não mata a sede, a que mais me atormenta, muita sede de ti. Mas bebo muita, bebo toda quanto posso, que quando o teu sorriso se fez beijo, chapinhávamos os dois, a água já aqui corria.
Se for a mesma, aquela mesma que te tocava, prometo todos os dias aqui virei, em silêncio pelo caminho, dar à alma a tua boca e à minha boca uma ilusão.

MY BLUE DREAMS

A POSTA ROMÂNTICA (Jan 2005)

Sou um dos raros privilegiados que, pelo menos uma vez na vida, conheceram o amor na sua vertente mais avassaladora. Os mais cépticos, coitados, desdenham da existência desta emoção única que pode nascer de um simples olhar. O amor à primeira vista não é um delírio romântico de telenovela. È possível, é real e constitui uma das impressões mais marcantes da existência de qualquer pessoa.Eu concretizo melhor: receber no peito o impacto desse instante poderoso obriga-nos a reconhecer, entre outras maravilhas, a emergência do romance na vida das pessoas. E utilizo a expressão emergência no seu sentido mais comum: é urgente despertar para a falta que o amor faz.

No preciso momento em que, entre centenas de rostos, o meu olhar se concentrou apenas num, descobri a essência desse impulso irresistível que nos empurra para os braços de outra pessoa. O meu arquivo blogueiro fala por mim no que concerne às muitas fés e ideologias a que nunca me converti. Sou um agnóstico, por regra pessimista e pouco dado a mares de rosas com perfume de utopia. Nesse sentido, nunca acreditei e nunca acreditaria num conceito como o do amor à primeira vista se não tivesse sido abençoado com a sua aparição. De rompante, um rosto de mulher tomou de assalto a minha descrença que outros rostos de mulheres por quem me apaixonei, ou algo parecido, nunca contrariaram. Sem apelo, rendi-me ao halo de luz e nada em meu redor continuou a fazer parte da realidade tal como eu a experimentei na altura.Era ela e mais nada ou alguém. E eu com o coração a galope, desorientado mas com a plena consciência do que me estava a acontecer.

Nada poderia atravessar-se no meu caminho quando furei a custo o mar de gente para me aproximar do ser humano que, até este dia, maior abalo me causou nas fundações. Ninguém poderia disputar a sua atenção nesses minutos de que eu dispunha para entrar na sua vida como ela já se instalara de armas e bagagens na minha. Numa tirada infeliz um amigo colocou-me a seguinte questão: e se eu descobrir um dia que ela é o amor da minha vida e quiser disputá-la? E eu respondi de imediato, falou o coração. Desistes ou morres. E não lhe restava mesmo outra alternativa, enquanto ela me quisesse como eu a queria e viria a acontecer.O amor à primeira vista é como um relâmpago que nos atinge, alta voltagem de uma corrente de paixão. É talvez, tal como faço questão de a recordar até ao fim dos meus dias, o vislumbre mais aproximado que terei de Deus se Ele existir sob esta forma - como gosto de acreditar à revelia da minha apregoada falta de fé.É esse o fundamento da minha perspectiva romântica das relações amorosas entre as pessoas. É por isso que afirmo sem hesitar que a cada esquina da vida, sem qualquer esforço de procura, pode encontrar-se o amor de uma vida.

E quando isso acontece, podem ter como certa uma coisa: a gente percebe na hora do que se trata.

17.5.08

NA PRÓXIMA ESTAÇÃO (Jan 2005)

Ontem estava no amanhã que agora sonho para mim. Nem reparei. Vivi esse tempo sem ter a noção do que tinha. Mas perdi.
Evito lembrar. A melancolia é vizinha da depressão. E correm depressa as notícias nesse prédio devoluto, sito nos bastidores da consciência de cada um de nós.
As recordações de perdas sofridas evocam a saudade. São más companhias. Mais vale só. Ainda que valha pouco uma pessoa doente, infectada pelo vírus da solidão. Pode contagiar qualquer um. E não existe uma vacina, lacuna na medicina, para o desgosto de amor.
Ou outro que seja.
Não existe lugar no mundo para os deserdados do coração.Talvez já tenha existido, mas eu não percebi. Andava distraído, perdido nas vielas do supérfluo quando possuía morada na artéria principal. O meu mal era a falta de orientação.

Encontrei o caminho, entretanto. Tinha partido o comboio quando cheguei à estação. Sentei-me sozinho num banco, à espera da seguinte locomotiva, a que estava para chegar.Ainda não chegou.E eu continuo sentado, talvez venha no dia a seguir.Poderei então reviver, apenas um dia depois, o sonho do que terei no futuro.

Quando der pela falta outra vez.

16.5.08

A POSTA ESCAMADA (11/2004)

Palavra. Assim, quieta, num canto da folha. Sem sentido, à espera da companhia de outras como ela. As únicas capazes de lhe fornecer uma explicação de si mesma, perplexa com a ambiguidade de uma palavra só, quando apenas uma palavra deveria bastar.O sentido que lhe faltava não era uma lacuna no sentido convencional. O sentido, afinal, padecia do mesmo problema. Na condição de palavra e enquanto conjunto de letras que queriam dizer alguma coisa a quem as soubesse ler. Eram vários os sentidos que lhe atribuíam mas ele sentia-se único, atónito com a variedade nas interpretações possíveis para uma palavra só. Como se cada palavra fosse concebida para atrair mais companheiras, e criassem novas expressões, frases completas, parágrafos elucidativos, capítulos de um livro que alguém se orgulharia de publicar. Milhares de palavras reunidas para construírem uma coisa qualquer, importante. Decisiva até.

Palavra. À espera de companhia para poder comunicar melhor. Palavra só. Mas afinal já eram duas. Olha uma palavra só. De repente, a frase brota da boca, descodificada pela mente da pessoa que a compreendeu à sua maneira. Mais vale só? - interroga-se a palavra, intimidada com a falta de privacidade que a presença de outras palavras lhe pode acarretar. Palavras feias, talvez. Más companhias. Abeirou-se de imediato a pessimista e sentou-se à direita da palavra só. A palavra disse não sou. Mas parecia e por isso lhe enviaram o castigo pejorativo de uma péssima conotação. A palavra rotulada de pessimista não estava sozinha outra vez. Mas queria, ou assim julgava, até decidir meditar por algum tempo, a sós.E por isso a deixaram quieta, noutra zona da folha, à espera do que viria, riscos calculados de uma solidão voluntária que a iria (alegadamente) proteger. Receava ser mal interpretada, tinha medo da incompreensão. Palavra que sim, afirmou. Que sim lá ficaram e palavra aprendeu a gostar do novo sentido que o trio lhe conferia. Sentia-se uma palavra melhor. Entretanto aprendeu algo mais, formulou uma hipótese e testou as conclusões.

Palavras. Reunidas em harmonia, perfeitas na combinação. Inequívocas. Porém, palavras é só uma. Artificialmente multiplicada por se travestir num plural. Sem precisar de outras palavras para seguir no sentido que pretendia, individual no ajuntamento, virtual na sua realidade que ambicionava comunicar. Não precisou de uma multidão de palavras para melhor se exprimir, bastou-lhe sintetizar o espírito da união que a sua pluralidade traduzia. E para os bons entendedores, calculava, apenas uma letra bastaria.